Intestino preso, barriga inchada e dificuldade para evacuar nem sempre são apenas falta de fibras. Em algumas mulheres, é importante investigar o IMO — uma condição associada à produção excessiva de metano no intestino.
A constipação intestinal é uma queixa muito comum entre as mulheres. Algumas passam dias sem evacuar, apresentam fezes endurecidas, precisam fazer força ou convivem com a sensação de que o intestino nunca esvazia completamente.
E muitas ainda percebem outro sintoma bastante característico: quanto mais o dia passa, mais a barriga incha.
É comum que essas pacientes já tenham aumentado a ingestão de água, colocado mais fibras na alimentação, usado probióticos ou recorrido a laxantes. Algumas melhoram. Outras continuam constipadas — e, em determinados casos, chegam a perceber mais gases e distensão quando aumentam muito as fibras.
Quando isso acontece, precisamos olhar além do sintoma.
Uma das condições que pode estar relacionada à constipação é o IMO (Intestinal Methanogen Overgrowth), ou supercrescimento intestinal de metanogênicos.
O que é IMO?
Apesar de muitas vezes ser chamado popularmente de “SIBO de metano”, o IMO não é exatamente um tipo de SIBO.
No SIBO ocorre um crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado. No IMO, há aumento de microrganismos chamados arqueias metanogênicas, principalmente Methanobrevibacter smithii.
Esses microrganismos utilizam hidrogênio produzido durante a fermentação intestinal e produzem metano (CH₄).
E é justamente o metano que chama atenção quando falamos em constipação.
Estudos mostram associação entre maior produção de metano, trânsito intestinal mais lento e constipação. Por isso, diretrizes recomendam considerar a investigação de excesso de metano em pacientes que apresentam constipação e características clínicas compatíveis.
Quais sintomas podem levantar a suspeita de IMO?
A constipação isoladamente não significa que uma mulher tenha IMO. Mas alguns sinais podem aumentar a suspeita clínica, especialmente quando aparecem juntos:
- intestino preso persistente;
- evacuações pouco frequentes;
- fezes endurecidas;
- esforço para evacuar;
- sensação de evacuação incompleta;
- distensão abdominal importante;
- excesso de gases;
- piora do inchaço ao longo do dia;
- sensação de fermentação após determinados alimentos;
- constipação que não melhora adequadamente com as medidas habituais.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada recentemente encontrou maior frequência e maior intensidade de constipação entre pacientes com IMO quando comparados aos controles.
Mas existe um ponto importante: nem toda constipação é IMO — e nem todo inchaço é SIBO.
Por que a constipação é tão comum nas mulheres?
O funcionamento intestinal feminino pode ser influenciado por diferentes fatores ao longo da vida.
Alterações hormonais, alimentação, rotina, medicamentos, estresse, síndrome do intestino irritável, alterações da motilidade intestinal e até condições do assoalho pélvico podem contribuir para a constipação.
Por isso, investigar uma mulher com intestino preso não deveria significar simplesmente prescrever um laxante.
Precisamos entender por que aquele intestino está lento.
Em algumas pacientes, o IMO pode fazer parte desse quebra-cabeça. Em outras, a causa predominante pode estar em outro mecanismo.
Como é feito o diagnóstico de IMO?
Uma das principais ferramentas utilizadas é o teste respiratório de hidrogênio e metano.
Durante o exame, a paciente ingere um substrato, geralmente glicose ou lactulose, e realiza coletas do ar expirado em determinados intervalos.
O objetivo é avaliar a produção dos gases resultantes da atividade microbiana intestinal.
De acordo com consensos e diretrizes atuais, concentrações de metano iguais ou superiores a 10 ppm no teste respiratório são consideradas compatíveis com positividade para IMO.
O resultado, entretanto, não deve ser interpretado isoladamente.
O teste precisa ser analisado em conjunto com os sintomas, a história clínica, os fatores predisponentes e outras possíveis causas de constipação.
Tenho constipação. Preciso fazer teste para IMO?
Não necessariamente.
Esse é um dos erros que precisamos evitar.
Constipação não é sinônimo de IMO.
Uma mulher pode ter intestino preso por alterações da motilidade do cólon, síndrome do intestino irritável com constipação, medicamentos, hipotireoidismo, alterações metabólicas ou dificuldade na mecânica da evacuação, entre outras possibilidades.
Existe, por exemplo, uma condição chamada dissinergia evacuatória, na qual os músculos envolvidos na evacuação não trabalham de maneira coordenada.
Nesses casos, tratar somente o excesso de metanogênicos, quando presente, pode não resolver todo o problema se a dificuldade de evacuação continuar.
Por isso, a investigação precisa ser individualizada.
E quando fibra piora o inchaço?
“Coma mais fibras” é uma orientação frequente para quem sofre com constipação.
As fibras são importantes para a saúde intestinal e fazem parte do tratamento de muitos pacientes. Mas quantidade, tipo e tolerância precisam ser considerados.
Em algumas mulheres com muita fermentação, gases e distensão, simplesmente aumentar grandes quantidades de fibras pode aumentar o desconforto.
Isso não significa que a paciente deva retirar fibras indefinidamente.
Significa que, antes de continuar adicionando suplementos e restrições alimentares por conta própria, talvez seja necessário entender o mecanismo responsável pelos sintomas.
Como tratar constipação associada ao IMO?
Quando o IMO é confirmado, o tratamento deve ser definido de forma individualizada pelo gastroenterologista.
Dependendo do caso, pode envolver tratamento direcionado ao excesso de metanogênicos, manejo adequado da constipação, ajustes alimentares e, principalmente, investigação e correção dos fatores que estão contribuindo para a lentificação do trânsito intestinal.
Esse último ponto é fundamental.
Não basta pensar apenas em “eliminar microrganismos”.
Se existe uma alteração de motilidade, um distúrbio evacuatório ou outro fator predisponente e ele não é identificado, os sintomas podem persistir ou retornar.
Intestino preso há anos não deve ser simplesmente normalizado
Muitas mulheres chegam ao consultório dizendo:
“Meu intestino sempre foi assim.”
Mas estar acostumada a um sintoma não significa que ele não mereça investigação.
Se você passa vários dias sem evacuar, precisa fazer força frequentemente, sente que não consegue esvaziar o intestino ou convive com uma barriga constantemente distendida, vale investigar o que está por trás desse padrão.
O IMO é apenas uma das possibilidades.
A avaliação adequada começa justamente em diferenciar quem tem constipação funcional, quem apresenta alteração da motilidade, quem pode ter um distúrbio do assoalho pélvico e quem possui sinais que justificam investigar IMO ou outras condições gastrointestinais.
Mais importante do que colocar um nome no sintoma é compreender o mecanismo que está mantendo aquele intestino preso.
Dra. Pâmela Oliveira
Gastroenterologista
Atendimento presencial em Brasília e consultas online.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação médica individualizada.